Pesquisa gaúcha revela que 75% da comunidade autista vive com até um salário mínimo no RS
Estudo da Faders cruza dados inéditos e mostra avanços, desigualdades e desafios na inclusão
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No Dia Mundial de Conscientização do Autismo, 2 de abril, a Faders Acessibilidade e Inclusão divulga a quinta edição da Pesquisa sobre as características da população com Transtorno do Espectro Autista (TEA) no Rio Grande do Sul. O estudo traz um retrato aprofundado sobre a realidade das pessoas autistas no Estado e reforça a importância de dados qualificados para a construção de políticas públicas eficazes.
O “Diagnóstico populacional e gestão pública: o impacto dos indicadores da CIPTEA na inclusão social” foi desenvolvido pela Coordenação de Pesquisa da Faders, instituição vinculada à Secretaria de Desenvolvimento Social (Sedes). Com base em 47.335 registros da Carteira de Identificação da Pessoa com Espectro Autista (CIPTEA), coletados entre junho de 2021 e março de 2026, o estudo consolida o maior banco de dados já estruturado no Estado.
A análise aponta avanços no diagnóstico, desigualdades socioeconômicas e lacunas no acesso a direitos. O cruzamento com o Censo 2022 do IBGE, que estimou 124.245 pessoas com autismo no Estado, permite dimensionar o alcance real da política pública e aponta que o Estado já identificou 38% da população autista nesta pesquisa. A carteira está presente em 492 dos 497 municípios gaúchos. “Diferentemente das estimativas censitárias, embasadas na autodeclaração domiciliar, cada um dos registros estaduais é chancelado por atestado clínico obrigatório. Isso consolida a FADERS como gestora de uma das bases de dados clinicamente validadas mais robustas do país”, enfatiza a coordenadora de Pesquisa da entidade, Aline Monteiro.
Perfil populacional
A pesquisa aponta que 75% dos pesquisados vivem com até um salário mínimo per capita e 52%, até meio salário mínimo. Cinquenta e dois por cento estão no Cadastro Único e somente 15,89% recebem o Benefício de Prestação Continuada (BPC), ainda que 24% tenha renda compatível com o subsídio.
O estudo comprova predominância masculina, com 69%, mas as mulheres avançam no diagnóstico: em 2024, as mulheres representavam 24,79%, e em 2026, chegaram a 30,12%, ainda 0,19% se identificam como outros. O dado indica redução do subdiagnóstico feminino.
A Faders identificou ainda um dado inédito, fruto do aprimoramento do formulário e que permite o desenvolvimento de políticas específicas: 47% dos usuários se auto declararam homens cisgênero, 30% mulheres cisgênero, 1% pessoas trans e não binárias, 4% outro e 18% não informaram. A distribuição racial segue o perfil populacional do RS: 79% se autodeclaram brancos, 12% pardos e 5% pretos.
O diagnóstico na infância ainda é maioria: 57,36% foram diagnosticados até os cinco anos de idade (destes 35,49% entre dois e três anos e 16,37% entre 4 e 5 anos). Porém, os adultos estão crescendo na base: diagnóstico após 16 anos subiram de 13,44% em 2025 para 18,25 em 2026. Os números mostram mais diagnósticos tardios, comprovando como a comunidade está buscando por direitos na vida adulta e apontando a necessidade de readequação das linhas de cuidado, que historicamente focam na primeira infância. Em comparação com 2025, há uma mudança proporcional na base: o grupo de pessoas a partir de 19 anos obteve um crescimento expressivo, subindo de 14% (na edição de 2025) para 18% no atual ciclo.
Das pessoas portadoras da CIPTEA, 56,95% não têm plano de saúde, mas a maioria (71%) tem acompanhamento multidisciplinar. O acompanhamento ocorre principalmente nas áreas de psicologia (59%), neurologia (57%),fonoaudiologia (45%) e terapia ocupacional (39%) .
Ao pesquisar a relação do TEA e outras deficiências, foi detectado que 81% têm apenas TEA e 18% possuem alguma deficiência associada. Entre estes, 14% têm uma deficiência adicional e 4%, múltiplas.
Desigualdades regionais e invisibilidade
A análise regionalizada, com base na divisão dos Conselhos Regionais de Desenvolvimento (COREDES), permite identificar a proporção de registros da CIPTEA em relação aos números levantados pelo IBGE para cada região. A Região Metropolitana do Delta do Jacuí tem o maior número, com 41% da estimativa populacional com autismo do Censo para o território. Proporcionalmente, destacam-se o Sul e Litoral, que já emitiram carteiras para, respectivamente, 48% e 47% das pessoas com TEA mapeadas pelo IBGE em suas regiões, revelando um alto grau de engajamento da rede local de apoio.
Os indicadores de escolarização e trabalho alertam para um afunilamento nas trajetórias de vida. Enquanto a inserção na Educação Básica é massiva, observa-se uma queda abrupta no Ensino Médio e Superior. No mercado de trabalho, a alta taxa de desocupação entre adultos e o baixo índice de ingressos amparados pela Lei de Cotas (apenas 10,19% dos empregados) evidenciam que a inclusão corporativa da população com TEA ainda é incipiente.
Conclusões
Os resultados revelam um cenário complexo: avanços importantes na identificação e no diagnóstico, especialmente entre mulheres e adultos, convivem com desafios estruturais como a alta vulnerabilidade socioeconômica, a dependência do SUS, as barreiras de acesso a benefícios e as desigualdades regionais. Ao mesmo tempo, evidenciam caminhos concretos: a digitalização de processos como facilitadora do acesso a direitos, a importância da busca ativa em territórios ainda descobertos e a urgência de políticas públicas mais integradas, que acompanhem a pessoa com TEA ao longo de toda a vida.
“O pioneirismo da FADERS ao estruturar e qualificar esse banco de dados posiciona o Rio Grande do Sul como referência nacional no tema e reforça um princípio fundamental: não há inclusão real sem dados, e não há política pública eficaz sem diagnóstico preciso da realidade”, reforça o presidente da Faders, Marquinho Lang.
Acesse a pesquisa completa aqui.